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Não fale de nós sem nós: Comunicação como prática social e campo de disputa

  • Foto do escritor: Grasiela Cordeiro
    Grasiela Cordeiro
  • 12 de ago.
  • 3 min de leitura

“Os jovens já tem voz. Portanto, meu objetivo não é dar voz. Meu objetivo é aumentar o volume para que sejamos ouvidos”.


A pergunta que sempre a atravessou minha prática: quem tem o direito de contar as histórias sobre os territórios? Ao longo da minha jornada, fui percebendo que essa pergunta não partia apenas de uma inquietação individual, ela revela uma estrutura mais ampla, onde a comunicação não é um campo neutro, mas é atravessada por relações de poder que determina quais vozes circulam, quais histórias são legitimadas e quais experiências são invisibilizadas ou distorcidas. Nos contextos de favelas e periferias, essa dinâmica se torna ainda mais evidente.


Grande parte das narrativas que circulam sobre esses territórios é produzida de fora. São olhares externos que, muitas vezes, reduzem a complexidade desses espaços a estereótipos: violência, ausência, carência. Essas representações não apenas informam, como também moldam percepções, influenciam políticas e impactam diretamente a forma como esses territórios são vistos e tratados.


Assim como o acesso à educação, à saúde ou à cidade, o acesso à comunicação,  entendido não apenas como consumo, mas como produção, é fundamental para a participação social e especificamente sobre crianças, adolescentes e jovens, está ligada à garantia do direito à participação. Sem a possibilidade de produzir e circular narrativas, determinados grupos permanecem à margem dos processos de construção de sentido que organizam a vida coletiva. Por isso, quando falo em formação em comunicação, não estou falando apenas de capacitação técnica. Estou falando de ampliar a capacidade de intervenção dos sujeitos na realidade.


Diante disso, formar comunicadores nesses contextos não é apenas uma ação educativa. É uma ação política que não se trata apenas de ensinar técnicas de vídeo, design ou produção de conteúdos para redes sociais. Trata-se de criar condições para que sujeitos historicamente colocados no lugar de objeto de narrativa passem a ocupar o lugar de sujeitos que narram. Esse deslocamento é central na minha prática. Quando alguém passa a produzir sua própria narrativa, algo se transforma. Não apenas no conteúdo produzido, mas na forma como essa pessoa se vê e se posiciona no mundo. A comunicação, nesse sentido, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um espaço de construção de identidade, de afirmação e de disputa.


Ao longo dos processos formativos que conduzo, essa transformação aparece de diferentes formas. Às vezes, ela se manifesta na escolha de um tema que antes não era considerado relevante. Outras vezes, na decisão de contar uma história que nunca havia sido contada. Em muitos casos, aparece na forma como os participantes passam a olhar para o próprio território, não mais apenas como lugar de falta, mas como espaço de produção de cultura, memória e potência. Em muitas das minhas experiências, os participantes começavam o percurso formativo com o discurso de “minha favela não tem nada” e saíam com um repertório de práticas culturais sobre suas comunidades. 


Esses deslocamentos são importantes porque reposicionam os participantes no processo formativo. Eles deixam de ser vistos como sujeitos que precisam “aprender do zero” e passam a ser reconhecidos como sujeitos que já possuem repertórios, ainda que muitas vezes não nomeados ou valorizados. Ao mesmo tempo, não se trata de romantizar o território. As favelas e periferias são espaços atravessados por desigualdades, violências e ausências estruturais, ignorar isso seria simplificar a realidade. O que busco é construir uma abordagem que consiga lidar com essa complexidade: reconhecer os desafios sem reduzir os territórios a eles, e valorizar as potências sem ignorar os conflitos.


Ao longo da minha trajetória, entendi que esse processo não acontece de forma automática. Ele precisa ser mediado, provocado e sustentado por metodologias que articulem prática e reflexão. É nesse ponto que minha atuação se consolida. Se, no início, minha inquietação estava em torno do “quem fala”, hoje ela se expande para o “como criar processos e experiências formativas para que mais pessoas possam falar, e principalmente ser ouvidas”. 


Formar comunicadores, nesse contexto, é também formar leitores críticos dessas realidades, isso implica desenvolver a capacidade de analisar como as narrativas são construídas, quais interesses estão em jogo, quais vozes são privilegiadas e quais são silenciadas. Implica também criar condições para que novas narrativas possam emergir,  narrativas que ampliem, tensionem e complexifiquem os imaginários existentes.


 
 
 

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