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Não fale de nós sem nós: Comunicação como prática social e campo de disputa

Foto do escritor: Grasiela Cordeiro
Grasiela Cordeiro
12 de ago.
2 min de leitura

Atualizado: 21 de set.

“Os jovens já tem voz. Portanto, meu objetivo não é dar voz. Meu objetivo é aumentar o volume para que sejamos ouvidos”.


A pergunta que sempre atravessou minha prática: quem tem o direito de contar as histórias sobre nós e nossos territórios? Ao longo da minha jornada, fui percebendo que essa pergunta não partia apenas de uma inquietação individual, mas também revela uma estrutura mais ampla, onde a comunicação não é um campo neutro, mas é atravessada por relações de poder que determina quais vozes circulam, quais histórias são legitimadas e quais experiências são invisibilizadas ou distorcidas. Nos contextos de favelas e periferias, essa dinâmica se torna ainda mais evidente.


Grande parte das narrativas que circulam sobre esses territórios é produzida de fora. São olhares externos que, muitas vezes, reduzem a complexidade desses espaços a estereótipos: violência, ausência, carência. Essas representações não apenas informam, como também moldam percepções, influenciam políticas e impactam diretamente a forma como esses lugares são vistos e tratados.


Essa perspectiva se relaciona diretamente com minha compreensão da comunicação como direito. Se comunicar é também participar da construção dos sentidos sobre o mundo, aprender a produzir mídia significa ampliar a capacidade dos sujeitos de contar suas próprias histórias, expressar suas perspectivas e disputar os imaginários que historicamente foram construídos sobre seus territórios e suas comunidades. Assim como o acesso à educação, à saúde ou à cidade, a comunicação deve ser entendida não apenas como consumo, mas como estratégia fundamental para a participação social e o fortalecimento da democracia. Sem a possibilidade de produzir e circular narrativas, determinados grupos permanecem à margem dos processos de construção de sentido que organizam a vida coletiva. 


Por isso, quando falo em formação de comunicadores, não estou falando apenas de capacitação técnica. Estou falando sobre ampliar as possibilidades para que sujeitos historicamente colocados no lugar de objeto de narrativa passem a ocupar o lugar de sujeitos que narram. Esse deslocamento é central na minha prática. Quando alguém passa a produzir sua própria narrativa, algo se transforma. Não apenas no conteúdo produzido, mas na forma como essa pessoa se vê e se posiciona no mundo. A comunicação, nesse sentido, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a ser um espaço de construção de identidade, de afirmação e de disputa.



 
 
 

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